Chove de Noite.

terça-feira, 18 de março de 2014
         
Repentinamente, se derrama, uma a uma,
Em cada gota d'água tombada da escuridão
Que se espalha pela chão e a terra perfuma,
Mas que ecoa tal qual vozes em lamentação

Se derrama toda a tristeza em forma de prece

Pintada com tinta a base d'água, com clareza
Em traços simples, pincelados com a destreza
De quem está dentro da tormenta e se esquece

Oh, o céu que se desmancha em água e bruma
Conta o tempo da ampulheta, de grão em grão
E, de pingo em pingo, até que um dia acostuma
A se envelhecer chorando a benta purificação...

E eu não sei se é mesmo a chuva que entristece

Ou se a razão de chover é a própria tristeza!
Pois a água que afoga, afaga em dócil gentileza
E, tão logo, se despede na névoa que esmorece.


Ensaio Sobre a Cegueira.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

"And a new day will dawn for those who stand long..."


Nunca vi árvores chorando
Pelo fruto caído - maduro
Com medo do vento futuro
Que virá na próxima estação
Arrancar-lhe as folhas, flores
Talvez galhos...

Nem andorinhas com pressa
Voando a procura de atalhos
Que possam tornar mais breve
A travessa conhecida e leve  
E repetida - outra migração
De uma outra estação...

Nunca vi o céu desesperado
Ao se despedir do sol ou lua
Pois o céu é velho e conhece
Que se vai e não vai atrasado
Parte tal andorinha sem pressa
E detrás da nuvem que flutua
Devagar regressa...

Nem tristeza não-inventada
Pois nunca vi árvore chorando
Sem galhos e sem coroa de flores
Nunca vi, pois somos homens
Tão falhos com as próprias dores
E sem coroa de espinhos, ainda
Eu já vi os cegos rirem...


Sinais.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Tarde da noite, rua deserta
E a lua cheia de mistérios
Como sempre, semi-coberta
Pela nébula que logo dissipa
E a revela, na luz pálida
Onde descansa...

Na noite fria, na noite mansa
Se faz brilhar uma luz amarela
Advinda d'uma outra fonte,
Que não da lua no horizonte!
E, enquanto o vento frio gela
Todo pensamento cíclico
Que se repete e repete mais
Tal qual se repetem os Natais
E suas luzes de pisca-pisca

Tal qual um sinal intermitente
Uma luz, do espectro amarelo
Capaz de me conduzir além
Do juízo, universo paralelo!
E o sinal brilha - intermitente
Tal qual o batimento cardíaco
Ou a nuvem na frente da lua
E o descompasso do zodíaco
Ciclos do motor do carro,
Do pensamento, inspiração
Da flor nascente sazonal
Ou de qualquer outra ordem
Que já passou. Era um sinal
Intermi
            tente
                De que estou vivo.

Fique alerta [silêncio]
Fique alerta - ele diz.

(In)consciência

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Transe, Mente 
Transcendente 
I n s p i r a ç ã o
E x p i r a ç ã o
Reflexão
Orientação
I n s p i r a ç ã o
E x p i r a ç ã o 
Elevação
Transformação
Caos em Cosmo
Corpo em Mente
Transcendente.

Imerso em imanência
Emana de mim
Somente o silêncio.

Entre o plano divino

E o terreno mundano
Reconheço minha condição
De reles ser humano
Inconscientemente 
Norteado pela razão
Sempre buscando explicação
No diálogo de dois em um,
Ou de mais, ou nenhum.

Porém calo as várias vozes
E deixo apenas o som
Do meu suspiro lento
Que se faz negro manto
Ao encobrir a luz da dúvida
E se faz doce mantra,
Atmosfera de um acalento.

E no domínio desta paz
O espírito experimenta
A harmonia da liberdade
E vaga tranquilo
No ritmo do suspiro 
Que ressonante
Evolui ao canto, sibilo
Canção do sonho sagrado,
O inverso do caos
Permante
Que rege esse universo
Consciente.

Retrospectiva (2013)

domingo, 5 de janeiro de 2014


De certa forma, estive feliz com o blog, pois andei conseguindo deixá-lo atualizado com alguma frequência desde que voltei a escrever nele no ano retrasado. Escrevi, escrevi, escrevi. Criei, criei, criei. Matei, matei, matei. Arteorizei, arterrorizei, arteei, artesourei e pretendo continuar assim. 2013, um ano de aprendizado: tanto pessoal quanto profissional. Coloquei-me de frente à loucura - não foi a primeira vez, mas, talvez, a mais marcante. Frequentei a Ala de Tratamento Psiquiátrico (ATP), e lá vi uma linha amarela, intransponível, presente nos sonhos e pesadelos e pensamentos de todos que a viram, ah sim. Era a linha, divisória, representativa da loucura do outro - ah, o outro - e a minha sanidade - quanta ilusão. Conheci crianças autistas. (Re)aprendi a olhar sem hierarquia, alteridade da igualdade, um exercício diário. Saí de um estágio e entrei em outro totalmente sem planejamento prévio. Dia após dia, vi que as oportunidades se apresentam e corri atrás do que quis, mesmo que com pouco tempo de planejamento. Conquistei e falhei. Idealizei projetos. Pessoalmente, aprendi a respeitar-me, a não me submeter. Permiti-me sentir, calar, gritar, sair, chegar, voltar, voar, cair e voar novamente. Afastei o que era torpe e cínico e dei valor ao bem. Nova mente, está são. Estações em mim. Ganhei cicatrizes e fiz minha primeira tatuagem. Led Zeppelin, vento na cara e um brinco de pena. Ah, a tal "pena"! Penso que esse foi um símbolo representativo desse ano - na pele riscada e e pendurada no furo feito na carne, mas, ainda assim, leve e suave, tal qual meu coração. A pena, a trindade, a eternidade e o universo. Tive novas sensações. Experimentei. Empiristualizei. Espiritualizei. Orei. Acreditei e desconfiei. Olhei mais para as estrelas, busquei mais respostas e, como de costume, encontrei...mais perguntas. Ah, o céu me encantou e isso não é novidade. Entretanto, fiz coisas inéditas e que não acreditava que faria um dia. O que não se muda em três meses ou em um dia! Por outro lado, não escapei da monotonia do cotidiano - normal. Depois de oito anos, juntei-me, novamente, a um amigo e montei um projeto musical. Esperem pelo som que tá bem bacana. Epifonia, criada em 2012, ainda continua de pé. Fiz meu primeiro show - com a Epifonia - em um Pub e fui remunerado (risos); toquei na embaixada britânica por cerveja importada e só bebi antarctica - palha HAHA. Ganhei um vinho por ter feito uma das melhores apresentações em um karaokê. Foram pequenas conquistas musicais, mas que me fizeram orgulhoso. Sim, cantei muito, mas silenciei o dobro. Sofri de mau olhado e que tenha ficado pra trás. Apresentei-me e despedi-me, mesmo sem gostar disso. Viajei. Não conheci tanta gente nova. Joguei truco uma vez apenas no ano, após uns quase dois anos de pausa e não joguei sinuca. Tirei foto com meus ídolos dos 15 anos, e meu eu-de-15-anos-espinhento ficou feliz. Manifestei. Subi no Congresso Nacional por um país melhor. Não fiz tanta coisa que queria e fiz coisa que não queria. Fui a vários shows muito, muito bons, mas senti saudade dos shows zoados que frequentava. Cozinhei melhor, conheci e acompanhei séries novas -Allons-y! Fiz minhas esquisitices que me tornam eu, endoidei várias vezes, mas fui mais quieto, bem mais quieto. Desesperei tanto, mas como dito, calei e tranquilizei, desapressei e fechei os olhos. Dormi muito, mas não me importo, porque eu gosto mesmo. Não escrevi meus sonhos. Reli minha alma; revi minha vida, minha luta, meus valores; gastei minha força; bebi minhas culpas, meu veneno e meu vinho; escrevi minhas cartas, meus começos, meus tropeços, meu(s) caminho(s); podei meu jardim. E agora é continuar caminhando...como se alguém lesse ou se importasse com isso aqui HAHAHAHAHA

Oração ao Poente.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Para 2013 que se põe e 2014 que nasce belo!
Um mantra, uma oração, uma ideia...

Onde o amor for infinito
Que eu encontre o meu lugar
E que o silêncio da saudade
Não me impeça de cantar

Onde o amor for infinito
Que eu encontre o meu lugar
Se, por ventura, eu for austero
Que eu mude o meu olhar

Onde o amor for infinito
Que eu encontre o meu lugar
Que o estorvo da maldade
Não me impeça de voar!

Onde o amor for infinito
Que eu encontre o meu lugar
E diante de toda ofensa
Espere o tempo para acalmar.

E onde houver descrença
Que se alcance essa oração
Que a indiferença que nos cerca
Se transforme em união!

Onde o amor for infinito
Que eu encontre o meu lugar 
Que eu possa ainda sorrir
Mesmo depois de chorar

Onde o amor for infinito 
Que eu encontre o meu lugar...

Gato Preto.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Tão só, tão sozinho
Cruzou o meu caminho
Como se na a hora certa
Sem nenhum atraso 
Um gato preto.

Não pode ser acaso!
Deve ser descaso
Descompasso
Do destino.

Desatino
Do encontro
Dos caminhos
Contratempos
Ensaiados.

Pode ser carma:
Quem sabe na vida passada
Embarquei mulher no convés
Pois todo homem do mar sabe
Que isso traz revés!

Tudo pode trazer revés!
Dos caminhos e passos
Que andam os meus pés.

E, dos encontros inesperados
Seguiram em rumos opostos
Era somente um gato preto.

O Apanhador de Sonhos.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Um olhar distante 
Diz tanto.

Estação.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Tal qual ondas de uma estação de rádio 
ou flores em estações...

Clique no texto para ampliá-lo.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013


A ausência te incomoda? Acostuma-te a incompletude, posto que esta é tua condição imutável! Costumo eu pensar que, de permanente, nesta vida, apenas a mudança. Não neste caso, porém. A descoberta do 'zero' representou, na época, um paradoxo, pois era difícil imaginar a quantificação e a representação do nada, do inexistente. Considera-se, logo, o zero como sendo uma das maiores invenções da humanidade, pois abriu espaço para a criação de todas as operações matemáticas que são conhecidas atualmente. Não é natural visualizar o vácuo, parece uma ilusão, utopia. Mas ele está lá. É a falta que preenche, ou vai me dizer que você não leu e entendeu "ausência"? Mas não há nada ali, não é? Sim, há. Há uma lacuna. A ação da retirada do grafema gerou a reação de completá-lo. Automático? Inconsciente? Anseios vãos. Indo um pouco mais além, não necessariamente cabe um i ali. Um "i" de imaginário no meio de uma ausência real. Podia ser qualquer coisa que preenche essa ausênc a - um F, G ou h; um 0; um traço; ou, simplesmente, o nada. Não se sabe. Só se sabe que esse objeto foi perdido e preenchido por aquilo que 'deveria caber ali'. Todos os dias acordamos e corremos. Corremos cegamente atrás de algo, que nem se sabe o que é, pois, se soubéssemos - verdadeiramente, não haveria o afã da busca, afoita. Falta Deus ou faltam sapatos até que haja a descoberta do              .

Querido diário,

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

É, esse post vai ser um pouco diferente dos outros presentes aqui no blog. Sem muito lirismo, serão apenas materializados alguns pensamentos despretensiosos que hoje me ocorreram. Reflexões rasas, banais e corriqueiras que, certamente, muita gente já pensou parecido...

- E aí, beleza?
- Beleza! E você?
- Vivendo a vida
- Adoidado?
- Jamais, parcimônia é lema de vida...

E, subitamente, aqui se findou o diálogo, podando toda e qualquer insanidade que poderia emergir de um insano com l  o  n  g  o  s  e dolorosos intervalos de sanidade...

Esse jeito CARETA de viver a vida me incomoda. Entendo, aceito, cada um sabe do seu, afinal; mas, mesmo assim, ainda sinto-me inquieto, no mínimo. Careta não no sentido de optar por não fazer uso de drogas, mas no sentido de só viver sem nada que extrapole o medíocre. Permanecer ali na superfície plana, sem oscilações, sem extremos. De fato, é mais cômodo, mas não me contento com isso, infelizmente. Meio-amar, meio-chorar ou meio-gritar; ou nem isso, tendo em vista que isso já é grande demonstração de imprudência, tangenciando nem que seja um pouco da nossa humanidade. 

Não dá pra permanecer em cima do muro em tudo: meio-sentir, meio-viver ou estar meio-grávida. Se não vive por completo, portanto, sobrevive? E se tornam ali, robozinhos caretas, longe de qualquer coisa que o torne realmente humano, longe do alto do monte ou do fundo do abismo. Homens-de-lata habituados com a falta de um coração - o do Mágico de Oz pelo menos buscava um, enquanto esses se contentam com o prudente, o meio termo; nem bom, nem ruim - apenas aceitável. 

A natureza não é parcimoniosa! É intensa, furiosa! Da calmaria à fúria dos mares mais bravios. Extremos! Não há coisa mais bela que o desequilíbrio se tornando equilíbrio para se desequilibrar novamente. Do metal que se molda em qualquer formato, podendo voltar ao formato inicial. Adaptação. Uma constante oscilação entre caos e cosmo.

E devagar se vai longe, longe, inclusive, até da sua própria essência - permanecendo superficial. Let me go, let me go. Let me seek the answer that I need to know. Let me find a way, let me walk away through the undertow, please let me go! Let me fly, let me fly...Let me rise against that blood-red velvet sky. Let me chase it all, break my wings and fall - probably survive - so let me fly. Let me fly. Let me run, let me run, let me ride the crest of chance into the sun. You were always there, but you may lose me here, now love me if you dare and let me run. I'm alive and I am true to my heart now - I am I; Let me break! Let me bleed! Let me tear myself apart I need to breathe! Let me lose my way! Let me walk astray! Maybe to proceed...just let me bleed! Let me drain, let me die, let me break the things I love I need to cry! Let me burn it all! Let me take my fall! Through the cleansing fire! Now let me die! Let me die...Let me out, let me fade into that pitch-black velvet night. Não condeno quem optou por ter um lema de vida tão estático, mas eu vou aí curtindo a vida adoidado, na potencialidade de cada momento. Arriscado ou não, deixe-me ir...

Se gostou, leia também Hi-Lili, Hi-Lo

Vinho de Rosas.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ao longe, o sino da capela bate e uma sombra deixa um rastro escarlate por onde passa até a décima segunda badalada. Tomai todos e bebei!

Cerram as púrpuras pálpebras
Sob o piso de pétalas pútridas 
Na face lânguida, desfalecente
Faz-se a luz da lua reluzente!

A figura funérea traja escarlate
E debruça sedenta sobre a donzela,
Desafortunada presa para o abate
Enquanto voam pétalas pela janela

Eis a última ceia que está servida!
Demoníaco, arrebata a esperança
Até a última gota que no colo desliza 
Arrastando o suspiro final d'uma vida...

São ilusões em sangue embebidas
De onde vêm quimeras impossíveis
Sim, sonhos, fantasias perecíveis!
Tal como aquelas pétalas fenecidas...

Errante pelas velhas sepulturas jaz a maldita alma sob a cruz; e se alimenta da vida e da inocência presente em cada sonho - um vampiro sedento que profana todo cálice que lhe encosta os lábios e azeda até o vinho das pétalas de rosas...

"Sou o sonho da tua esperança, tua febre que nunca descansa, o delírio que te há de matar!" Sim, amiguinhos, esse sou eu - a figura escarlate! Bizarro, bizarro hehe  

This is Halloween! This is Halloween!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Monstrinhos. Vejo monstrinhos em todo lugar. Das velhas lendas de bruxas e vampiros aos personagens modernos de histórias de terror e mitos urbanos pra boi não dormir! Uma bela noite que, certamente, deixaria Lord Byron ou Mary Shelley orgulhosos. Entretanto, não há medo. Não há hiperventilação, taquicardia ou rigidez muscular - nenhuma reação fisiológica que justifique o medo. Depois de velhos, nossos medos mudam. As figuras que nos amedrontavam não o fazem mais. O silêncio e a solidão nos dão muito mais medo que um possível bicho-papão. A ausência da figura do monstro em si nos faz preencher o barulho do vento com nossos piores pesadelos. O monstro não está debaixo da cama ou dentro do guarda roupa - está em/ é você, que vê o que teme onde não há. Tememos o indesejado até nos neo-monstros: pedófilos, psicóticos e psicopatas, em toda sua monstruosidade de violação da lei social e, principalmente, da lei da natureza - afinal, são monstros, desapropriados de toda e qualquer humanidade por conta de suas discrepâncias do comportamento socialmente e naturalmente aceito. Um disfarce para nossa própria monstruosidade renegada em máscaras de monstro  ou em monstros sem máscara. É noite de Helloween.

Um dos meus filmes preferidos na infância!

Fogo-fátuo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013




Minha alma - a madita sob a cruz
Segue o rumo da peste e da agonia
E se cobre de dor, desgraça, e pus.
A maldita da noite, abolida do dia!

Errante por entre as velhas sepulturas
Segue a sombra entoando, em noite fria 
O canto dolente das próprias desventuras
Enquando acende o fogo da candearia:

Descansa, oh, minha dor!
E busca na noite mais escura
Refúgio para tanta amargura,
O silêncio acolhedor...

Se amansa, oh, meu sofrer!
Posto que minha voz é lamento
E ressoante, faz-se  o acalento
Pra minha dor adormecer.

Perdão, perdão aos quatro ventos
Pois sou filho do vinho, profano
E não nego os meus pecados
De um reles ser humano...

Súbita como surgiu, a sombra desvanece
Tal qual fogo-fátuo, assombro dos tolos
E leva consigo os infindos desconsolos
Entoados, ainda, na repetida antiga prece!

E some a sombra por entre o campo morto
O pendor, a treva e o mal são passageiros
Não se iluda, também o gozo e o conforto
Se apagam como o fogo daqueles candeeiros...

Condicional.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

"Uma vida é pouco para tanto"
Lenine.

E, mais uma vez, encontro-me preso em meu quarto escuro, entre sentenças abstratas que vagueiam no espaço das quatro paredes que me guardam, tais como as quatro esquinas que limitam a liberdade das palavras ao verso escrito e não ao vento cantado. Encontro-me preso nesse porão escuro - sem direito a condicional - entre as linhas sem sentido aparente, entre as linhas não escritas da minha própria história. Nos espaços paralelos entre as retas que formam cada linha, entrelinhas, universos alternativos, acasos possíveis. Fui sentenciado, portanto, à condição daquele que vive inúmeros personagens nas várias vidas presentes em cada potencialidade de cada momento  - e quantos momentos. E se, no meu quarto escuro, eu apenas adormecesse em meio ao caos de pensamentos que me invadem agora? Essas palavras jamais existiriam. Encarcerado no meu próprio labirinto, vou achando os caminhos - pura ilusão. Se isso, então aquilo. Se, e somente se, eu fosse menos lógico! Como eu gostaria, para que pudesse, em vãos momentos, eu cantar ao negro céu, entristecido, o que era pra ter sido e não aconteceu. Simplesmente. No entanto, eu não fiz essa escolha e isso me dá outra consequência, outro caminho a ser seguido, outra vida que nunca esperei - e morrem tantas outras vidas que jamais saberei. Se eu fosse o primeiro a saber o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem, então, agora eu seria? E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado? O que não foi não é, mas...e se eu fosse menos lógico. Meu fim está, portanto, no tear de uma rede de probabilidades e condições ao qual me aprisiono. E, como um inseto capturado, quanto mais me debato, mais fico preso na teia. É sim uma armadilha. De mim para mim. E, por fim, entre tantas condições, o que permanece incondicional é minha vontade de ter certeza daquilo que seria... Oh, you think darkness is your ally, but you merely adopted the dark. I was born in it, molded by it. I didn’t see the light until I was already a man. By then, it was nothing to me but blinding! The shadows betray you, because they belong to me!
Paradoxos .