Desbotado.
terça-feira, 10 de maio de 2016
O tempo trouxe a frente fria
E, no céu, pintaram-se tons gris
Vestiu-se para combinar com o dia
Blusa preta, gasta, acinzentada
O olhar mirou o céu que se passaria
De límpido à pálido infeliz
Mas sabendo que a pele se clareia
Enquanto desbota a cicatriz
ColoRiu.
Blues.
sábado, 30 de abril de 2016
A cor da tristeza
No céu vira acorde
Vibrando na corda
Que recorda o vento
Assobiando no ouvido
Na voz se transborda
O lamento vivido
E no vento vibrante
Voa o tom dissonante
Um acorde: tristeza
O uivo
De um lobo
Melancólico
Em um solo
Pentatônico.
Rubescência.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
"O sol nasceu vermelho"
Do breu fez-se a cor amanhecida
Estampada no céu de sangue vivo
Que escorria por entre as nuvens
Colorindo como verbo defectivo
Que não se conjuga mais.
E eu não sei se o céu ficou assim
Pela minha saudade adormecida
Ou a saudade se declarou carmim
Escorrida pela vontade do céu
Que não quer mais chorar.
E se não sente, insiste na dormência
De não sentir a chuva nos olhos
E sangue nas veias, o que é imposto
É a memória quente, cor-de-canela,
Na rubescência do rosto.
Leaving rope burns
Reddish rouge
Dancei.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Hoje a saudade me procurou
Sem descanso, um dia inteiro
Até que a deixei me encontrar
Pra que eu fosse seu parceiro
Nessa dança da lembrança:
Um pra lá e o outro pra cá
E dor pra cá, e dor pra lá...
Mundo de garotas más.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Quando se está à deriva, qualquer luz parece atrativa e todo porto se finge seguro para um coração pirata. Sob um mar de ressaca e névoa de nicotina, deslizo seduzido pela cintilância que desatina em olhos que são faróis conduzindo como se conduz um inseto para o fim. Uma luz, em mim algoz - olhar fugaz. Repetidos e perdidos. Da vontade de um canto de sereia que ardesse o sangue nas veias, restou a quietude, o marasmo, a calmaria. A falsa ilusão de que o navegar errante seja prudente. E todo homem do mar sabe que a sorte pode virar em qualquer vento, subitamente em direção a águas misteriosas e potencialmente perigosas, das quais não se sabe o que irá emergir - ou no que se irá imergir. E quando o batimento acelera e intensifica, questiona-se se é fruto do anúncio de uma certeza sentida ou do medo do erro que se apresenta. Toda a prudência é extinta no desespero da tempestade. E a força do (a)mar não per-doa. Sem saber se será engolido pela tempestade, o pirata abre uma garrafa de rum e serve belas doses para dizer aquilo que sóbrio não pode se dizer: adeus.
1/4 escuro.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
Quarta-feira em um pub desses meio pop-alternativo-underground e não sei como se iniciou esse pensamento. Estava eu, no meio de uma multidão, já entorpecidamente confortável pelo solo da música que antecedeu a que tocava no momento desse lampejo. Olhos fechados e, ainda assim, podia acompanhar o movimento das luzes vermelhas e azuis tridimensionais que atravessavam minhas pálpebras cerradas; a música que passeava no local e as vozes uníssonas a entoar um mantra hipnótico sobre a ausência que atravessavam meus ouvidos; e esses tais pensamentos que insistiam em atravessar minha consciência naquele momento. Como se fazia irônico o fato de uma música que fala de uma ausência - que também dava nome a um álbum inteiro sobre o mesmo assunto- ser cantada por todos ali presentes. Ao perceber isso, de olhos fechados, deixei que meus lábios se sincronizassem com as palavras da música, mas sem entoá-las, afinal, deixei que as não-palavras que saíssem da minha boca fossem as palavras de ausência da tal música que estava tocando. Estava eu, ali, sozinho como no meu quarto escuro, só que rodeado de solidões, no meio de uma multidão que cantava a perda. Deixei-me, então, lembrar de todos que já passaram e despedi-me, ou quis encontrar de novo, não nego. Além disso, se tratava de uma balada, uma música para ser cantada por todos, como em rodinhas de violão, talvez por se tratar de algo comum àqueles ali: algo faltante, que não comparece, como as palavras no meu canto silencioso, um ode à ausência, à saudade, à espera do reencontro. E corremos de braços abertos e olhos fechados para esse reencontro. Correndo sobre o mesmo velho chão o que nós achamos? Os mesmos velhos medos. Queria que você estivesse aqui.
Céu aberto.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
"Any place you don't leave is a prison"
Viu-se e repetiu-se o suficiente
Para aceitar a condição: penitência
Sentença para corpo, alma e mente
De onde não se sai e não se liberta
Até o tempo da própria descoberta
De que na porta não há tranca
E nunca se esteve preso.
Ecos.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Ainda que no meu lábio seco se dissesse
Uma última súplica, pedido feito prece
E nele se escorresse uma lágrima morta
É o arrependimento que não se esquece,
Que no choro não fenece,
E tampouco o reconforta.
A um perdão que nunca vem, desaparece
Tal qual miragem que ilude e desvanece
Nas névoas densas de um inverno morno
A mágoa vira água e evapora e umedece
De algum jeito permanece
Em um eterno retorno.
(desp)Reza.
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
"Será o Homem um erro de Deus,
ou Deus um erro dos Homens?"
Nietzsche
(I)
Incerto sobre estar rezando ao contrário
Dada a ausência de toda graça ou de bênção
Corro a mão sobre cada conta de um rosário
Sem dar voz à prece, a minha vã devoção
A dúvida persiste e profana meu santuário,
Creio na santidade do espírito ou na razão?
O malogro divino cai sobre o homem solitário
Exausto de orar e clamar por proteção!
Essa foi a dádiva dada, presente de nascença
Única, posto que no resto reina a indiferença
Que resulta na verdadeira verborragia herética!
Certamente, o inferno é irrefutável sentença
Peço perdão, portanto, por tamanha ofensa...
Mas, Senhor, cogitar é minha crença antitética!
Mas, Senhor, cogitar é minha crença antitética!
(II)
Frente à misericórdia, discurso temerário
Exclamei: livrai-me de toda a maldição!
Como em um ato desesperado e arbitrário
Faço dessa, enfim, minha última oração!
Já foi crível que o desgosto fosse temporário
E, da esperança, houve absoluta veneração
Que morreu ao bater dos sinos do campanário
Juntamente com a minha vida de precação!
Não culpo a dúvida causada pela dor imensa...
Nem o abandono, quiçá fruto d'uma desavença
Que ergueu como altar a minha fé hipotética
E suplico do alto da minha sé de descrença:
Perdoai a quem te ofende de forma intensa
Se o tenho ofendido com minha fala cética!
Charada.
quinta-feira, 9 de julho de 2015
¿Decifra-me no silêncio, no não dito, na hesitação, no engasgo. E tudo que não foi dito não pode mais ser. E tudo que foi, teve de assim ser. Não sou dono do tempo nem senhor do espaço, mas recuso-me a submeter as suas leis. A gravidade é apenas uma formalidade ambivalente e a distância pode se medir em graus Celsius de uma respiração quente que aquece e não se esquece nas noites frias de inferno. Sou viajante no tempo e este torna-se repleto de paradoxos e paralelos, pois insisto no retorno a momentos do passado para encontros e reecontros e pulos para um futuro imaginado em condições - decidi inventar um nome próprio para essas viagens: saudade. Ando saudadeando por aí com uma carta coringa nas mãos. Agente do caos, da ordem não compreendida, dos eventos aleatoriamente organizados, dos erros certos, das possibilidades paradoxais do tempo. Ando tomando o caminho inverso dos poetas, devotando-me ao silêncio e deixando a poesia existir além dos versos que a traduzem. Não são os cabelos que ganham a metáfora do céu flamejante dos fins de tarde, são os traços de luz no céu que são os próprios fios de cabelo. A calmaria que agora é habitada por uma voz, a noite que é envolvida por um cheiro. Não foi tu que me ganhaste, posto que sempre pertenci. Fogo no céu, que arde sem chover. Ferida que dói e que se mente, tá tudo bem. Um contentamento, ainda que ausente. Dor que me destina a viver. Afinal, quem sou eu?
Calo.
quarta-feira, 13 de maio de 2015
Calo, já calejado de tentar ter voz.
[...]
Sustento meu silêncio Silêncio que é a ausência da palavra
Pois é só o que consigo sustentar Ausência que pesa, suplício carregado
Além do peso acima dos ombros. Que me impede de carregar qualquer outra coisa
Silêncio meu, eloquente Ausência eloquente, na desistência de ter voz.
No qual as palavras emudecem Nesse mundo atroz, onde habitam os cegos por opção
E permaneço, assim, silente... E surdos por conveniência. Mas que fa(l)ham até demais.
A prosa é presa no caixão apertado A prosa amordaçada se debate no cárcere sepulcral
Enterrado a sete palmos da minha boca Onde foi aprisionada e sentenciada, indefesa
Onde morre o verso aversivo! À morte por asfixia, afogando-se no próprio ar...
Meu discurso perde o rumo, o ritmo. Dentro, reverbera até cessar, enlouquecer e ser
E se engasga, abrupto, no peito Enterrado vivo, sem ter para onde ir além do caixão
Que agora se faz seu leito Onde tudo é quieto, calado e silencioso...
De morte... ...e ninguém vai me ouvir gritar.
[...]
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
A dor que nunca sentiram
Pois nunca invadiram minha pele
Sequer olharam com os meus olhos
Cansados de chorar decisões erradas
Aos olhos dos outros, e tenho de olhar
E pedir perdão por aquilo que senti
Peço perdão a todos que feri
Inclusive a mim
I n s o n e to
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
1, 2, 3, 4, 5, 6, trivialidades,
5, 6, 7, irrelevâncias, questões
Onde parei? 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8
Ideias, rimas pobres, preocupações
Oh, Morfeu, por que tanto te demoras?
9, 10, 11, 12 ovelhas mais 2 olheiras
Esforço inútil; a derrota já fora decidida
Pois todo grito vira eco em propagação
Na fenda escura, mente insana, aturdida!
O som se funde, se confunde, vã reflexão
Em cada voz que brada, incompreendida
E de tudo, posso ter uma única conclusão:
Mais uma noite a menos para esta vida!
A treva desafia e indaga e, à noite, cismo
Se eu encarar, encara-me de volta o abismo?
Um notívago errante entre a dúvida enorme!
Sobretudo, há de ser verso, frívolo lirismo
Digo, a gênese da treva, de todo ceticismo
É que não se sonha - pois aqui não se dorme!
Meio Cheio e Meio Vazio.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
De companhia, tenho um cinzeiro
E um copo cheio de preocupações
Culpas, medos e vãs lamentações
O calor frio que emana do isqueiro
Dá forma evanescente em ilusões
Na fumaça que adentra os pulmões
Sento só, um copo cheio
Conto um, dois e três
E viro, assim, de vez!
Ainda só, um copo vazio
Agora de fé e lucidez
Vazio de vida - talvez!
Sentado à beira do desfiladeiro
A borda deste copo, confirmações:
O vácuo que se firma por invasões
E preenche, se ocupa por inteiro
Do vazio dos espaços - reflexões
A vida: das lacunas às inundações
...em copos cheios e vazios
cheios e vazios
chiso e vaziops
chesosi e~; vjaizose
Incen diário.
domingo, 14 de setembro de 2014
"A solidão é meu cigarro
Não sei de nada e não sou de ninguém
Não sei de nada e não sou de ninguém
Um vinho, um travo amargo e morro
Eu sigo só porque é o que me convém"
Eu sigo só porque é o que me convém"
Zeca Baleiro.
Sentei
Sozinha
E acendi um cigarro
O riso, meu amor,
É a véspera do escárnio
Deixei consumir-se
O tabaco de cravo,
A fria fumaça
Se formando em pigarro.
Ficar aqui,
Ou uma volta de carro?
Inalei o vapor
Que evanescia em escarro,
Mortalha sutil
De um jogo de baralho:
A realeza vil de
Um bêbado solitário.
Sou rainha regente
Do meu próprio obituário:
Suicídio com fogo
Do coração incendiário.
Por L. C. G.
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