P&B

segunda-feira, 6 de março de 2017

Na penumbra atravessa um traço de luz
Pois só há sombra se há o que for luzido
E onde transpassa este fulgor traduzido
Embrasam as formas nos tons mais crus

A revelar tudo o que a voz não traduz
Há de ficar o tempo em grafismos emudecido
Contornos frios sobre cada eco esquecido
Nos abismos, ao que toda memória se reduz

Linhas imutáveis ficam no papel inodoro
E incolor, e insonoro; um império a ruir
Desbotando-se em afetos monocromáticos

A presença do aroma que escapa do poro
Do pólen da flor, do timbre da voz, a fugir 
Em fantasmas evanescentes e enigmáticos...







Apague ao Sair.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017



O ardor alaranjado corta o carvão
E revela o incêndio não cicatrizado
No braseiro de entranhas que sobra
Do meu corpo outrora incendiado

Feito sopro quente de respiração
Corre o vento no calor conservado 
E, deslizante, se dobra e desdobra
Entre o carvoeiro quase apagado

E tudo que é, das cinzas rebenta
E tudo que há, às cinzas retorna
Assegura o carbono imperativo

E quando findar o fogo abrasivo 
Deixai a superfície fria e cinzenta
Nada há de nascer da brasa morna.


Liberto.

sábado, 3 de dezembro de 2016

"Estou aqui onde sempre quis estar
Devo tudo isso a ti, mas preciso voar..."
Scalene


(Haven de Vladimir Kush) 



Meu doido coração, aonde vais
Afoito em busca dos quatro ventos?
És doído, vide as correntes austrais 
E te prepara para futuros lamentos!

Vai, sem demora, para a liberdade
Mas te retornas de novo à quietude 
Sem o embaraço de sentir saudade
E de amar, portanto, amiúde!

Veleja entre os mares mais bravios
Sem receio de encontrar a calmaria.
Aonde vais então, oh, vadio coração?

Tomam a guia do amor os desvarios...
E a riqueza mais rara és tua alforria
De amar sem medo d'outra desilusão!


Cais.

terça-feira, 11 de outubro de 2016


PARTE I
"Cada dia que passo sem tua presença
Sou um presidiário cumprindo sentença
Sou um velho diário perdido na areia
Esperando que você me leia
Sou pista vazia esperando aviões
Sou o lamento no canto da sereia
Esperando o naufrágio das embarcações"
Vander Lee

(foto por Gabriela Ciolini - clique na imagem para ampliá-la)

No porto, de peito aberto, aguardo 
e guardo um abraço tão longo 
quanto a minha espera...

Quando o horizonte põe-se bicolor
E em tons de azul e rosa a tarde finda
Aqui permaneço a tua espera ainda...
E somente o mar conforta a minha dor

Provo da minha paz e da minha agonia
Sinto a mansidão do vento e da maresia
E a aflição na dúvida do teu regresso
...De mais um dia - só - me despeço

Frente ao teu olhar tão vasto e sereno
Faz-se este deserto anil muito pequeno
Ínfimo perante tantos memoriais
Fica o meu longo aguardo neste cais!

E cai o negro manto, enfim, sobre o ocaso
Trazendo o breu até onde a vista alcança
Assim, ouço ainda a onda se romper no raso
No vai-e-vem das águas, benta em esperança

[As ondas vão, mas não deixam de voltar]

As gotas, então, se confundem no ar
Desertoras do mar ou de olhos marejados
- Quem nunca viu a partida de quem ama 
Não sabe o drama de quem só pode esperar –

Sinto-me sem direção em um mar sem cais
Assim, sem paz, à deriva das horas que se vão
- Alguém que em tormento o pranto chora
E implora para um dia a espera acabar - 

Aos poucos a angústia decai e se desfaz...
É a tua lembrança que me lança nesse mar!
- Alguém que em memórias se derrama
E clama para a felicidade reencontrar-

E ao céu no qual vejo o teu cabelo preto
Em profundo misticismo eu prometo:
Aportei em ti e daqui eu não saio mais
E o tempo vai passando nesse leva e traz...

PARTE II
"É, pode ser que a maré não vire
Pode ser do vento vir contra o cais
E se já não sinto os teus sinais
Pode ser da vida acostumar
Será, Morena?
Sobre estar só
Eu sei" 
 Los Hermanos

Quando as horas põem-se a morrer
E finda mais um dia em tons de azul e rosa
Em meu rosto, resta só uma lágrima teimosa
É a minha saudade que insiste em escorrer

A cada instante se afasta a linha do horizonte 
Ao passo que aqui permaneço, inerte e silente
Vejo o sol deitar e o tempo seguindo adiante
Eis a minha solidão ainda mais permanente 

À tua espera, paciente, de poente a poente  
Vi, diante de mim, uns cem dias e mais mil
E se fez meu olhar cada vez mais descrente
A se perderem as vistas no vasto deserto anil

À tua espera, inocente, não segui em frente 
Aguardei, então, a tua volta, sem previsão
...E de repente, não mais que de repente 
Senti que o vento soprava n'outra direção...

[O vento não volta mais pra perto desse cais]

E o vento, outrora quente, desliza morno
Tal qual o choro que foi ficando no caminho
Sozinho, sequei meu pranto e calei meu canto    
Pois não há sequer prenúncio do teu retorno

A brisa fraquejante já não traz nenhum presságio
Pois corre tanto pra morrer na areia, abatida
E entre a partida absoluta e a volta irresoluta,  
Prefiro declarar deste sentimento o naufrágio!

De peito aberto, guardei um abraço tão extenso
Tal qual a minha espera, que não sei até quando 
Mas, aproveitando que estou de braços abertos
Irei lançar-me num voo ao horizonte, tão imenso!

Ao luzir dos primeiros traços de um novo dia
Impávido, irei abandonar, enfim, este cais...
Respirar novos ares em outros mares - alivia!

Deixar-me levar por entre os pontos cardeais.

Amar elo.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

 (Foto de Gabriela Ciolini. Clique na foto para ampliá-la)


Descanso o corpo no campo de flores douradas
Enquanto minh'alma se reflete no firmamento,
Que se funde, em luz, nas pétalas repousadas
E vai além, bem longe de todo meu tormento. 

Vai além-mares de ressaca e olhos de cigana
Ao encontro dos olhos de sossego, (a)morosos
Onde eu não tenho pressa e a paz é soberana
Vagueando também nos olhos meus, vagarosos

E vêm esvoaçar os ventos, adventos de outrora
Em cada fio de cabelo, onde paira a inquietude  
Levar para daqui bem longe, na graça e na virtude
Das flores que se voam, e se voam sem demora...

Em traços de pincel, o arco-íris é o céu presente
Do elo da essência ao campo amarelo reluzente
Posso olhar para o mundo sem qualquer dissabor
A paz vive comigo e, puramente, respiro amor. 

[...] 

Desbotado.

terça-feira, 10 de maio de 2016

O tempo trouxe a frente fria
E, no céu, pintaram-se tons gris

Vestiu-se para combinar com o dia
Blusa preta, gasta, acinzentada

O olhar mirou o céu que se passaria
De límpido à pálido infeliz

Mas sabendo que a pele se clareia
Enquanto desbota a cicatriz

ColoRiu. 

Blues.

sábado, 30 de abril de 2016

A cor da tristeza
No céu vira acorde
Vibrando na corda
Que recorda o vento
Assobiando no ouvido

Na voz se transborda
O lamento vivido
E no vento vibrante
Voa o tom dissonante
Um acorde: tristeza

O uivo 
    De um lobo 
        Melancólico
             Em um solo
                  Pentatônico.


Rubescência.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

"O sol nasceu vermelho"
Do breu fez-se a cor amanhecida 
Estampada no céu de sangue vivo
Que escorria por entre as nuvens
Colorindo como verbo defectivo
Que não se conjuga mais. 

E eu não sei se o céu ficou assim
Pela minha saudade adormecida
Ou a saudade se declarou carmim
Escorrida pela vontade do céu
Que não quer mais chorar. 

E se não sente, insiste na dormência
De não sentir a chuva nos olhos 
E sangue nas veias, o que é imposto
É a memória quente, cor-de-canela, 
Na rubescência do rosto.



Leaving rope burns
Reddish rouge

Dancei.

quinta-feira, 7 de abril de 2016




Hoje a saudade me procurou
Sem descanso, um dia inteiro
Até que a deixei me encontrar 
Pra que eu fosse seu parceiro
Nessa dança da lembrança:
Um pra lá e o outro pra cá
E dor pra cá, e dor pra lá...


Mundo de garotas más.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016


Quando se está à deriva, qualquer luz parece atrativa e todo porto se finge seguro para um coração pirata. Sob um mar de ressaca e névoa de nicotina, deslizo seduzido pela cintilância que desatina em olhos que são faróis conduzindo como se conduz um inseto para o fim. Uma luz, em mim algoz - olhar fugaz. Repetidos e perdidos. Da vontade de um canto de sereia que ardesse o sangue nas veias, restou a quietude, o marasmo, a calmaria. A falsa ilusão de que o navegar errante seja prudente. E todo homem do mar sabe que a sorte pode virar em qualquer vento, subitamente em direção a águas misteriosas e potencialmente perigosas, das quais não se sabe o que irá emergir - ou no que se irá imergir. E quando o batimento acelera e intensifica, questiona-se se é fruto do anúncio de uma certeza sentida ou do medo do erro que se apresenta. Toda a prudência é extinta no desespero da tempestade. E a força do (a)mar não per-doa. Sem saber se será engolido pela tempestade, o pirata abre uma garrafa de rum e serve belas doses para dizer aquilo que sóbrio não pode se dizer: adeus.    


1/4 escuro.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Quarta-feira em um pub desses meio pop-alternativo-underground e não sei como se iniciou esse pensamento. Estava eu, no meio de uma multidão, já entorpecidamente confortável pelo solo da música que antecedeu a que tocava no momento desse lampejo. Olhos fechados e, ainda assim, podia acompanhar o movimento das luzes vermelhas e azuis tridimensionais que atravessavam minhas pálpebras cerradas; a música que passeava no local e as vozes uníssonas a entoar um mantra hipnótico sobre a ausência que atravessavam meus ouvidos; e esses tais pensamentos que insistiam em atravessar minha consciência naquele momento. Como se fazia irônico o fato de uma música que fala de uma ausência - que também dava nome a um álbum inteiro sobre o mesmo assunto- ser cantada por todos ali presentes. Ao perceber isso, de olhos fechados, deixei que meus lábios se sincronizassem com as palavras da música, mas sem entoá-las, afinal, deixei que as não-palavras que saíssem da minha boca fossem as palavras de ausência da tal música que estava tocando. Estava eu, ali, sozinho como no meu quarto escuro, só que rodeado de solidões, no meio de uma multidão que cantava a perda. Deixei-me, então, lembrar de todos que já passaram e despedi-me, ou quis encontrar de novo, não nego. Além disso, se tratava de uma balada, uma música para ser cantada por todos, como em rodinhas de violão, talvez por se tratar de algo comum àqueles ali: algo faltante, que não comparece, como as palavras no meu canto silencioso, um ode à ausência, à saudade, à espera do reencontro. E corremos de braços abertos e olhos fechados para esse reencontro. Correndo sobre o mesmo velho chão o que nós achamos? Os mesmos velhos medos. Queria que você estivesse aqui. 

Céu aberto.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

"Any place you don't leave is a prison"


Dentro de uma gaiola branca

Viu-se e repetiu-se o suficiente

Para aceitar a condição: penitência

Sentença para corpo, alma e mente

De onde não se sai e não se liberta

Até o tempo da própria descoberta

De que na porta não há tranca

E nunca se esteve preso.





Ecos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Ainda que no meu lábio seco se dissesse

Uma última súplica, pedido feito prece

E nele se escorresse uma lágrima morta

É o arrependimento que não se esquece,

Que no choro não fenece,

E tampouco o reconforta.



A um perdão que nunca vem, desaparece

Tal qual miragem que ilude e desvanece  

Nas névoas densas de um inverno morno

A mágoa vira água e evapora e umedece

De algum jeito permanece

Em um eterno retorno.



(desp)Reza.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

"Será o Homem um erro de Deus, 
ou Deus um erro dos Homens?"
Nietzsche

(I)

Incerto sobre estar rezando ao contrário
Dada a ausência de toda graça ou de bênção
Corro a mão sobre cada conta de um rosário
Sem dar voz à prece, a minha vã devoção

A dúvida persiste e profana meu santuário,
Creio na santidade do espírito ou na razão?
O malogro divino cai sobre o homem solitário
Exausto de orar e clamar por proteção!

Essa foi a dádiva dada, presente de nascença
Única, posto que no resto reina a indiferença
Que resulta na verdadeira verborragia herética!

Certamente, o inferno é irrefutável sentença
Peço perdão, portanto, por tamanha ofensa...
Mas, Senhor, cogitar é minha crença antitética!

(II)

Frente à misericórdia, discurso temerário
Exclamei: livrai-me de toda a maldição!
Como em um ato desesperado e arbitrário
Faço dessa, enfim, minha última oração!

Já foi crível que o desgosto fosse temporário 
E, da esperança, houve absoluta veneração
Que morreu ao bater dos sinos do campanário
Juntamente com a minha vida de precação!

Não culpo a dúvida causada pela dor imensa...
Nem o abandono, quiçá fruto d'uma desavença 
Que ergueu como altar a minha fé hipotética

E suplico do alto da minha sé de descrença: 
Perdoai a quem te ofende de forma intensa
Se o tenho ofendido com minha fala cética!





Charada.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

¿Decifra-me no silêncio, no não dito, na hesitação, no engasgo. E tudo que não foi dito não pode mais ser. E tudo que foi, teve de assim ser. Não sou dono do tempo nem senhor do espaço, mas recuso-me a submeter as suas leis. A gravidade é apenas uma formalidade ambivalente e a distância pode se medir  em graus Celsius de uma respiração quente que aquece e não se esquece nas noites frias de inferno. Sou viajante no tempo e este torna-se repleto de paradoxos e paralelos, pois insisto no retorno a momentos do passado para encontros e reecontros e pulos para um futuro imaginado em condições - decidi inventar um nome próprio para essas viagens: saudade. Ando saudadeando por aí com uma carta coringa nas mãos. Agente do caos, da ordem não compreendida, dos eventos aleatoriamente organizados, dos erros certos, das possibilidades paradoxais do tempo. Ando tomando o caminho inverso dos poetas, devotando-me ao silêncio e deixando a poesia existir além dos versos que a traduzem. Não são os cabelos que ganham a metáfora do céu flamejante dos fins de tarde, são os traços de luz no céu que são os próprios fios de cabelo. A calmaria que agora é habitada por uma voz, a noite que é envolvida por um cheiro. Não foi tu que me ganhaste, posto que sempre pertenci. Fogo no céu, que arde sem chover. Ferida que dói e que se mente, tá tudo bem. Um contentamento, ainda que ausente. Dor que me destina a viver. Afinal, quem sou eu?